sábado, 4 de agosto de 2012

Onde está o teu Deus?


Por Alexandre Nobre

            Vivemos num tempo em que somos constantemente vigiados. É quase impossível ocorrer um fato importante e o mesmo passar despercebido pelos meios de comunicação. Com o avanço da tecnologia e a rapidez na transmissão de dados, estamos totalmente imersos em uma teia que conecta seus indivíduos; é a tal da globalização.
            E, em meio ao conhecimento compartilhado, uma outra característica surge nesse cenário: a competição; principalmente no meio profissional, mas não restringido a ele. Há, de forma geral, uma corrida por estar à frente; ser o melhor, ou pelo menos estar em uma posição mais agradável; e assim, os que não se encaixam nesse perfil, são considerados perdedores, fracos, tímidos demais para a nova fase da história humana.
            Com o advento das redes sociais, essa competição assume características de orgulho e necessidade de aprovação: não há perdedores no mundo virtual; nem fracos em quaisquer outras redes sociais. Ali é o universo onde todos parecem felizes e bem sucedidos.    Mas e por trás das cortinas? E quando os monitores são desligados e não há mais conexão? O que fazer quando nos pedem satisfação da nossa ausência no pódio e percebemos que estamos nos últimos lugares da fila?
            No meio cristão não é diferente. O neopentecostalismo trouxe a ideia de que “somos mais do que vencedores” e que “derrota não é coisa de cristão”. Mas o que parece bonito de se dizer nos púlpitos e agradável de se ouvir em louvores na prática raramente acontece; às vezes o cristão perde, outras vezes chora no canto escondido, essa é a nossa realidade.
            É a inversão de valores e a falta da correta interpretação dos versos bíblicos que têm gerado uma safra de cristãos rasos. E quando assumimos o fracasso, nos vestimos de saco de pano e nos assentamos nas cinzas logo aparece alguém para nos perguntar: “Onde está teu Deus?”. É uma mensagem clara em nosso meio: se estamos sorrindo Deus está conosco; se choramos em meio ao sofrimento estamos em pecado ou, no mínimo, não temos fé.
            Nos tempos do Velho Testamento, esse tipo de provocação poderia ser comum, pois o povo de Deus vivia entre nações politeístas e idólatras. Daí, quando o povo de Deus era afrontado ou se sofria alguma derrota logo poderia se ouvir a zombaria das nações vizinhas: “Onde está o teu Deus?”. Foi meditando em alguns salmos que percebi que, por diversas razões, alguns homens foram questionados sobre o silêncio de Deus. Pelo menos três salmos apresentam esse quadro: Salmo 42, 79 e 115. Salmos diferentes, escrito por pessoas diferentes, porém a mesma situação: Por que o sofrimento, se você crê num Deus todo poderoso?
            Como descrito acima, essa nova concepção de que o sofrimento deve morar do outro lado da rua, mas nunca habitar em nossa casa, foi uma ideia trazida pelo neopentecostalismo. Se procurarmos por mensagens e sermões na internet, invariavelmente vamos nos deparar com “receitas” de como conquistar o impossível, como ser feliz ou como ser um vencedor. Isso sem falar nas músicas que, nem de perto, lembram os louvores de antigamente. Penso que é raro não encontrar uma música, dita cristã, que não contenha as palavras “sucesso”, “vitória”, “vencedor”, ou qualquer uma de suas variáveis. Mas, o que pode parecer inofensivo, na verdade torna-se nocivo a partir do momento em que consideramos que o sofrimento é mal, e que só somos verdadeiramente servos e filhos de Deus se estivermos bem empregados, saudáveis, felizes e financeiramente abastados.
            Entretanto, esse é um ensinamento anti-bíblico, pois é durante os tormentos e tribulações que temos nossa fé provada, como ouro no fogo (I Pe 1:7). Quando passamos pelas misérias da vida, nossa fé é questionada e precisamos estar sempre aptos para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós (I Pe 3:15). Como todos os nossos modelos de comportamento e fé partem dos exemplos citados nas escrituras, vale aqui trazer ao texto dois exemplos particulares e comuns: a história de Ana e Isabel. Ambas mulheres tementes a Deus; ambas foram humilhadas por causa da sua situação: eram estéreis.
            Em nossos dias, essas duas mulheres, que choravam pela sua situação, certamente seriam aconselhadas a realizar campanhas de vitórias e profetizar a cura e o milagre; também poderiam ser orientadas a realizar a confissão positiva, afinal há poder em nossas palavras e o que ligarmos na terra será ligado no céu. É debaixo dessa teologia rasa e sem fundamento que muitos vivem, e por falta de conhecimento bíblico muitos andam numa verdadeira peregrinação em busca do alívio para seus sofrimentos.
            Ana e Isabel, no entanto sabiam o que fazer. Ambas desejavam um milagre, ambas sofriam a afronta e zombaria por estarem nas últimas posições na fila da bênção; vejam a situação de Ana:
E a sua rival excessivamente a provocava, para a irritar; porque o Senhor lhe tinha cerrado a madre. Ela, pois, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente. E sucedeu que, perseverando ela em orar perante o Senhor .... (e disse) tenho derramado a minha alma perante o Senhor.” (I Sm 1:6,7,9). A história já é conhecida de muitos; Penina, segunda esposa de Elcana, zombava de Ana, pois era mãe enquanto Ana era estéril. Ana, no entanto, optou pela melhor posição: a oração. Como lemos, ela orou e se acompanharmos a história veremos que Deus concedeu a ela não apenas um filho (Samuel), mas outros 5 (I Sm 2:21). Deus foi glorificado na vida de Ana, e isso através de sua vida piedosa e em oração; não houve invencionismos para se alcançar a vitória; na prática vemos a história de uma mulher entregue à oração e à obediência. Passemos agora à história de nossa irmã Isabel:
“E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso; (e) disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. (E disse Isabel) Assim me fez o Senhor, nos dias em que atentou em mim, para destruir o meu opróbrio entre os homens.” (Lc 1:11,13,25)
Que providência divina! O que mais me chamou a atenção nesse texto foi o uso da palavra “opróbrio”. A definição dessa palavra, segundo o dicionário Michaelis¹ é “extrema abjeção; maior desonra; ignomínia; afronta, vergonha, infâmia, injúria.” Deus tirou, aniquilou, destruiu a vergonha e a desonra de Isabel, dando-lhe um filho. Aleuia.
Irmãos, lembremos das palavras de Paulo a Timóteo, em sua segunda carta, quando ele disse: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (II Tm 3:12). Deus não promete, nem nunca prometeu uma vida de facilidades e de contínua exaltação; o próprio Senhor disse que no mundo teríamos aflições, e nos exortou a termos bom ânimo. É óbvio que, em todas as nossas necessidades, Deus tem o poder de nos socorrer, mas se estamos passando por severas tribulações não podemos desfalecer, pois o verdadeiro cristão entende que “essa leve e momentânea tribulação produz em nós um peso de glória mui excelente” (II Co 4:17). Se verdadeiramente você nasceu de novo, se deveras é um filho de Deus, em suas tribulações e aflições, quando for afrontado e humilhado, não tenha vergonha de vestir de saco e se humilhar perante o Senhor; e se mesmo assim vierem te afrontar lhe perguntando: Onde está o teu Deus? Faça como o salmista e proclame em alta voz:
“O meu Deus está nos céus, e faz tudo como ele quer” (Sl 115:3).
Somos filhos de Deus, e se somos afligidos e açoitados, como filhos somos, e tudo o que acontece em nossa vida tem um propósito; Deus sempre faz tudo como Ele quer; para Sua glória! Retenhamos firme a promessa e o cuidado do Senhor.

Que o Deus de paz nos ajude.


1. http://michaelis.uol.com.br

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...