sábado, 29 de junho de 2013

O que te basta?

Por Alexandre Nobre

Os dias em que estamos vivendo entrarão sem dúvidas para a história. Protestos, reivindicações, manifestações; o direito que temos foi (e está sendo) gritado aos quatro cantos do Brasil e até em alguns lugares do mundo. É a cidadania em plena força em nosso país; brasileiros, filhos dessa nação, reivindicando o que é seu por direito. Isso é bom, porque temos acordado e pesado na balança o que temos e o que nos fora prometido; e o resultado foi esse: o que temos está aquém do que nos foi prometido; queremos mais, queremos nossos direitos, afinal foram prometidos, então queremos o que é nosso e o que temos não nos basta.

Se na vida política qualquer solicitação é mais do que justa e necessária, na vida espiritual qualquer requerimento por direitos prometidos pode ser danoso e herético. E infelizmente, vemos um não pequeno número de cristãos orando, pregando e cantando suas reivindicações, alegando que todas são promessas não cumpridas e que, por natureza, são deles por herança. Vamos analisar essa questão à luz das Escrituras e aí nos perguntaremos: O que, de fato, nos basta? Ou ainda, o que temos como cristãos, é suficiente?
            A Palavra de Deus é repleta de promessas. Através de Cristo, temos a garantia de vitória certa. Mas que tipo de vitória estamos falando? É aí que apenas uma boa exegese separa o joio do trigo, e coloca cada coisa em seu devido lugar. Há promessas sim; há vitória sim; mas ambas estão relacionadas à verdadeira vitória: vida eterna. As benesses intermediárias no processo de caminhada espiritual do cristão não podem ofuscar o alvo: salvação em Cristo. Claro que essas benesses vêm de Deus, inclusive sobre os ímpios! Sim, é a graça comum de Deus. Veja a chuva que cai sobre justos e injustos; o sol que brilha sobre todos; a prosperidade dos ímpios inclusive foi tema do salmista no salmo de número 73; vejamos: “Pois eu tinha inveja dos néscios; quando via a prosperidade dos ímpios; porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força” (versos 3 e 4). E por serem os ímpios alvos também da graça comum, as conquistas nessa terra, espiritualmente falando, não são prerrogativas de filiação divina, mas são para a glória de Deus; mas o contrário disso não é para a vergonha, pois ainda que o fracasso ocorra, o cristão tem em si o maior tesouro: a segurança da sua salvação em Cristo. Dessa forma, o conceito de vitória (espiritual) em nossos dias está totalmente deturpado. Daí, quando uma parte de cristãos evangélicos olha para os reveses da vida, forma uma teologia própria baseada em versículos isolados e disso sai uma das heresias mais nocivas dos nossos tempos.
            Nesse ponto, voltamos, então, a falar sobre reivindicar, protestar, exigir, requerer algo que foi prometido e que ainda não chegou. Sobre essa base formam-se pregações, músicas, mensagens, etc. Deus então passa da posição de Senhor para servo sem que se consiga perceber; o crente determina e Deus faz; simples assim. Mas não pensem que isso é fácil de identificar, pois não é. Geralmente, na pregação ou canção, há uma mistura de conceitos, alguns biblicamente corretos, que se não forem bem separados e analisados vendem a ideia de um Deus servil, que é feito apenas para abençoar.
            Não preciso expor minha opinião em relação à qualidade e fidelidade bíblica das músicas cristãs da atualidade; mas o fato é que o antropocentrismo tem tomado conta de nossos cultos, seja através da pregação ou nas canções. Por falar em música, não tem quem não ouviu exaustivamente canções biblicamente pobres como:
“Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na bênção vão se arrepender”;
“Deus quero minha herança, não importa tanto tempo, é preciso esperar...”
“Restitui, eu quero de volta o que é meu...”
“Eis que um novo vencedor está chegando aí e vai impactar o mundo com a sua história”.

Você consegue perceber? Quando não se exige de Deus, há uma exaltação do homem; isso está errado! Não se pode ou se deve “querer” ou “exigir” nada, pois tudo vem de Deus e nada, absolutamente nada em nós merece qualquer favor do Senhor. “Querer de volta o que é meu”? Mas meu mesmo, de verdade, é apenas uma natureza caída, afundada no mais tenebroso e podre pecado que me puxa ferozmente ao mais profundo inferno, lugar do qual nunca mereceria sair, se não fosse a graça de Deus através de Jesus Cristo. A pregação antropocêntrica é outra figurinha carimbada nos púlpitos cristãos. Não importa quão ruim as coisas estão; basta você declarar e profetizar, basta comprar o lenço ungido ou fazer a corrente dos 300 pastores que tudo mudará. Se ainda quiser algo mais impactante (pra não dizer bizarro) você pode andar pelo vale de sal ou levar a rosa ungida pra casa; é simples ... sofrer pra quê? E nessa levada, o poder de Deus é empacotado, limitado a uma rosa, água, votos, pão, etc.
            Então, consideramos que a reivindicação cristã atual é por vitórias que mais parecem a lista de desejos do ganhador da mega-sena. Isso sem contar os testemunhos: Quem não tinha nada passa a ter tudo ... quem estava à beira da morte é curado ... e o camarada que estava com a empresa praticamente falida se recupera e até abre uma filial! O bem-estar do homem acima de tudo ... os fins justificando os meios. Não estou dizendo que isso é impossível de acontecer, nem tão pouco afirmando que, quando acontece, não é obra de Deus; absolutamente! Tudo é para a glória de Deus. O que me assusta é a corrida da “benção”, a busca da cura, seja através de votos e promessas ou até mesmo pelo suor do “homem de Deus”; isso não pode acontecer.
            Por isso, é necessário estarmos atentos, pois exigir do homem é fácil, mas de Deus não se exige nada; em relação a Deus nosso comportamento deve ser de total submissão, esperando do Senhor aquilo que Lhe apraz.
            Os conceitos de vitória cristã atual e a vitória cristã bíblica foram com muita propriedade expostos no livro “A verdadeira vitória do cristão”, de MaurícioZágari. Neste livro ele escreveu o seguinte: “Na época do fast food, preferimos seguir o que o pastor da TV ensinou em 15 minutos do que gastar tempo com a Bíblia, com os melhores teólogos e os grandes escritores da nossa Historia. Logo, comemos junk food espiritual, comida sem nutrientes, cheia de impurezas e que pode provocar inanição da alma. Também, ávidos por parar de sofrer, nos engajamos em campanhas e correntes as mais variadas, que nos levam muitas vezes a fazer ‘despachos gospel’ e ‘simpatias evangélicas’ com rosas, copos d’água, lenços e outros patuás. Queremos prosperar. Por essa razão, buscamos nosso ‘sócio comercial’, Jesus, esquecendo que Ele mesmo afirmou que seu Reino não é desse mundo. Fazemos de tudo pela ‘vitória’. Esquecendo o verdadeiro Jesus, o Verbo encarnado, e inventamos um Jesus genérico, que (esperamos) vai nos conceder benefícios materiais caso cumpramos ‘seus’ pré-requisitos. (p. 34).
            Você consegue entender qual é a situação da igreja nos dias de hoje? Essa é a razão de estarmos atentos, pois o conceito da soberania de Deus não pode ser deturpado de acordo com a cobiça em busca de multidões ou pela ânsia de bens materiais.

            Por isso, quando pensarem em protestar ou reivindicar, façam a homens, como o que temos visto nos dias de hoje; mas com Deus, sua única posição deve ser a de servo, quebrantado, humilhado diante de um Deus todo poderoso e Santíssimo. Diante de Deus, sigam o conselho do nosso irmão Tiago: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza. Humilhai-vos perante o Senhor, e ELE vos exaltará.” (Tg 4:8-10).

Quero compartilhar com vocês uma música que há tempos não vemos sendo cantada em eventos evangélicos; ouça-a com a alma e perceba a diferença entre a música antropocêntrica e teocêntrica:


E lembrem-se, quando te incitarem a requerer de Deus, tenham em mente as Palavras de Jesus: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (II Co 12:9).


Que o Deus de paz nos ajude.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A má notícia e as boas novas

Por Alexandre Nobre

Uma noite, no fim do culto, um homem entrou na igreja em que eu congrego e começamos a conversar sobre as consequências daqueles que não buscavam a Cristo e partiam desse mundo. Ele, apesar de não ser um cristão, parecia preocupado, ou pelo menos incomodado com o sofrimento que o inferno representava. Nessa conversa, tentei lhe explicar que, o pior do inferno não seria apenas o sofrimento; o sofrimento sim faria parte de um todo, mas a pior coisa que aconteceria era a total e eterna falta de comunhão com Deus. Ainda que o inferno não trouxesse o sofrimento ou, como alguns acreditam, ainda que as almas caíssem num sono profundo e eterno, o pior castigo certamente seria a exclusão de uma vida de comunhão com o Senhor. Nenhum lugar, por melhor que seja, é bom se não se puder desfrutar da comunhão com nosso Deus. E um paralelo, ainda que em um grau bem menor, foi vivido pelos filhos de Israel conforme veremos a seguir.
            A cena que se via foi extremamente chocante para Moisés. Deus já havia dito que o povo havia se corrompido e se desviado do caminho; mesmo assim o que se viu causou grande furor em Moisés (Ex 32:19) e a explicação de Arão foi uma só: “... tu sabes que esse povo é inclinado ao mal” (Ex 32:22). Essa era e sempre será a condição do homem: inclinação ao mal. Apesar de Moisés advogar junto ao Senhor por aquele povo, a idolatria não ficaria em vão. Aconteceu então que: “Disse mais o Senhor a Moisés: Vai, sobe daqui, tu e o povo que fizeste subir da terra do Egito, à terra que jurei a Abraão, a Isaque e a Jacó, dizendo: A tua semente te darei. E enviarei um anjo adiante de ti ... porque eu não subirei no meio de ti, porquanto és povo obstinado, para que te não consuma eu no caminho” (Ex 33:13).
            Até aqui, apesar do pecado do povo, o castigo de Deus não parecia dos mais severos; o povo ainda assim tinha a promessa de alcançar a terra prometida. Mas a sentença dada fez com que o povo abrisse os olhos para a maior dádiva recebida: a presença de Deus entre eles; vejamos o que aconteceu: “E, ouvindo o povo esta má notícia, entristeceram-se, e nenhum deles pôs sobre si os seus atavios.” (Ex 33:4).
            O desenrolar da história podemos conferir nas Escrituras, mas o foco aqui é ver a reação do povo quando se ouve que Deus não subiria no meio deles: eles entristeceram-se! Esse é o resultado prático daquele que ouve uma má notícia: a tristeza vem; e com ela o vazio de quem olha a situação e nada pode fazer.
Se formos comparar essa situação de uma forma macro para a situação do homem de todos os tempos, poderemos encontrar similaridades aos montes. A sentença da ausência de Deus foi resultado da prática da idolatria do povo; mas essa idolatria é a manifestação externa da maldade do homem, da sua necessidade de criar para si um substituto de Deus. Isso sem contar que a desculpa de Arão para a idolatria do povo é fatalmente nossa natureza mais íntima: “... esse povo é inclinado ao mal”.
Esse povo sou eu, é você; não adianta tentarmos exibir nossa fantasia de caridade, nem nos agarrarmos em nossas “boas” obras, pois sabemos e conhecemos a realidade que habita em nós. Lembra-se de Adão e Eva? Mesmo com todas as regalias e benesses do paraíso, bastou uma oferta da serpente para que o fiel da balança se movesse, infelizmente na direção errada. Aliás, esse é um dos temas mais debatidos no meio teológico: a depravação total do homem. Somos inclinados ao mal, essa inclinação é fruto do pecado e corrupção do homem, por isso temos, assim como o povo de Israel, o mesmo diagnóstico conforme Paulo escreveu aos Romanos, veja: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Dessa vez a sentença não é apenas sobre um povo, mas sobre todos... todos foram separados de Deus e essa má notícia pairava sobre os homens numa sentença imutável.
Porém, como diz as Escrituras, o Senhor teve misericórdia dos homens e essa misericórdia se manifestou no nascimento, vida, morte e ressurreição do Seu filho Jesus Cristo. E quando apenas a má notícia pairava sobre o destino da humanidade, um anjo do Senhor apareceu a três pastores, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E diz as Escrituras: “... não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo; pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” (Lc 2:10-11).
            Percebemos que nossa situação foi transformada radicalmente, pois o que se podia comentar era que as más notícias tinham ficado pra trás; boas novas de salvação poderiam ser proclamadas, pois Ele veio para libertar os cativos; Ele veio para iluminar nossas trevas, pois de Si mesmo falou: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8:12).
            Portanto, hoje somos alcançados por essa boa nova de salvação. Outrora, estávamos como os filhos de Israel, andávamos sob essa má notícia, ou talvez ainda pior, pois enquanto os filhos de Israel caminhavam para a terra que mana leite e mel, nós andávamos como cegos em direção a um abismo eterno, longe da comunhão com nosso Deus. Talvez, em algum momento, direcionamos nossos olhos para algo que, de forma infinitamente débil, tentou substituir o lugar de Deus em nossas vidas, porém lembramos-nos das Palavras do nosso Salvador quando perguntou: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (MT 16:26). Nada se compara à presença de Deus em nossas vidas, por isso hoje e sempre as boas novas são novas de grande alegria, pois Nele temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça (Ef 1:7). No relato bíblico inicial vemos que o próprio Moisés reconhecia de forma absoluta a necessidade da presença de Deus, pois ele mesmo rogou ao Senhor: “Se a tua presença não for conosco, não nos faça subir daqui.” (Ex 33:15).
            A experiência com aquele homem que parecia tão incomodado com o sofrimento do inferno me fez perceber que esse incômodo e desesperança não precisam habitar em mim, pois fui salvo na cruz pelo meu Redentor, e não somente salvo da ira, mas salvo do abismo de separação que havia entre Deus e eu. A partir do dia em que ouvi as boas novas de salvação e recebi a graça posso descansar, pois confio nas promessas de Deus e na Sua presença. Retenhamos então firme a nossa confissão!!


Que o Deus de paz nos ajude!
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