sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A dor do pecado

Por Alexandre Nobre

“Quando eu guardei em silêncio, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido todo o dia.” (Sl 32:3)

Uma noite dessas acordei com uma forte dor de cabeça. Era mais ou menos 1:30 h e, por conhecer as características da minha dor, sabia que não ia passar se eu não tomasse um remédio e fizesse uma compressa com água quente. De nada adiantaria tentar dormir, eu deveria me levantar e tomar meu remédio, além de esquentar água para a bolsa térmica, o que ajuda a aliviar a dor. Nesse meio tempo o sono acaba sumindo e o foco passa a ser a dor. Mas ela em si não me assustava e, por mais forte que estava, eu sabia que bastava um analgésico e uma hora com a bolsa sob a cabeça que a dor desapareceria e eu voltaria a dormir.
Amo a madrugada; de verdade. Acho que não há melhor momento para meditação do que quando tudo está em silêncio e sempre que posso gosto de meditar em algum livro que estou lendo ou em algum trecho das Escrituras; e assim o fiz. Pensei na minha dor física e me veio à mente uma outra dor, muito mais latente e cruel: a dor do pecado.
Eu sou fraco … peco a todo instante, assim como você. Mas não poucas vezes deixei que o pecado tomasse uma proporção maior dentro de mim e, como costumo dizer: em minha peregrinação procurei repouso em lugares hostis.
Uma das coisas mais difíceis para o homem é admitir seus pecados, mesmo sabendo que Deus os esquadrinha com total iluminação, somos tentados a esconder nossas misérias como uma criança que, em vão, tenta esconder a bagunça dos pais.
Um comprimido pode tranquilamente acalmar a dor física; mas o que dizer, ou melhor, o que fazer para acalmar a dor que o pecado traz? Parece uma questão simples de se responder, porém na prática a coisa não funciona assim; há um caminho espinhoso e humilhante a percorrer aquele que, com sinceridade, procura a forma cristã de tratar a dor que o pecado traz: a confissão.
Lembra do versículo citado acima? Olhe para quem o escreveu … veja um homem forte no corpo, hábil em batalhas; porém como eu e você, propenso à quedas morais, à ira e a toda sorte de pecados que nossa maldade pode produzir; e como produz! Vemos um jovem sendo escolhido por Deus para reinar sobre Israel e sendo honrado em seu reinado, vencendo batalha após batalha, sendo ainda segundo o coração de Deus (At 13:22), mas sucumbiu àquela estrada que, desde Adão, todos trilham: a estrada do pecado.
A Bíblia é clara em relação a isso: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Mas o que me faz escrever esse texto não é tratar sobre o porquê pecamos; mas como lidar com a dor do pecado, como se afastar dessas garras frias e afiadas que podem nos trancar em um poço de desespero e aflição. Aquele que nunca passou por essa aflição, sendo um sincero cristão, um dia passará. Pecamos desde o princípio e seria ingenuidade pesar todos os pecados com um único peso. Todo pecado é pecado; quanto à penalidade sim, todos serão punidos (Ez 18:4); porém quanto à gravidade há diferenças entre eles, pois se assim não fosse não estaria escrito: “Toda iniquidade é pecado, e há pecado que não é para a morte” (I Jo 5:17); ou ainda “Na verdade vos digo que todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens … qualquer, porém, que blasfema contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão” (Mc 3:28-19).
Não estou afirmando, no entanto, que o arrependimento deva ser diferente para diferentes pecados; não é isso! Todo pecado será julgado e condenado, por isso o menor deles deve ser tratado com total e pleno arrependimento diante de Deus. A questão aqui é que há pecados que abalam de forma mais arrasadora nossa estrutura; o olhar para uma mulher com cobiça já é adultério (Mt 5:28), mas nenhum casado diria que a dor da cobiça é igual à dor do ato de adultério.
A saída para a dor e angústia, então, está no arrependimento e confissão sinceros. Nisso o salmista estava certo e em sua experiência nos deu o exemplo de como devemos agir nas horas angustiantes que passamos quando somos assolados pela culpa do pecado: “Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado.” (Sl 32:5). João também segue a mesma linha escrevendo: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça” (I Jo 19).  
É preciso confessar, e na confissão expor com paciência e submissão cada pecado, como que entregando cada um deles a Deus, para que Ele trate, limpe, purifique e finalmente perdoe nossas falhas. Parece fácil? Mas não é! Confessar pecados requer submissão e explaná-los diante de um Deus santo não é simples. Muitas vezes nos envergonhamos e, em oração, fazemos uma confissão superficial de nossos pecados, isso quando o fazemos.
E com Deus, não podemos agir como agimos com os homens. Atualmente tudo é muito superficial: as conversas, as amizades, as relações; enfim, tudo acaba ficando na superfície. Quando foi a última vez que você e eu cumprimos o conselho de Tiago e confessamos os nossos pecados e nossas culpas a algum irmão? (Tg 5:16). Se expor dói; e essa dor não deveria ocorrer, pois quando nos expomos fazemos o que ordena a Palavra. Assim fizeram os profetas (Is 6:5), os reis (Sl 51), os apóstolos (Rm 7:24) e tantos outros; e assim devemos fazer.
Confessando nossos pecados com os nossos irmãos nos faz dividir a carga e confessando-os a Deus nos faz limpos em Tua presença. Por isso, se eu hoje escrevo, escrevo aquilo que aprendi lendo a Bíblia e também textos dos puritanos, que tratavam do pecado e seus efeitos de maneira corajosa, sem enfeites nem malabarismos comuns aqueles que nada compreendem das Escrituras.
Naquela noite foi de grande proveito meditar nisso e saber que o caminho da confissão, arrependimento e abandono do pecado é bíblico. Por isso, quando nos sentirmos culpados, corramos com paciência e submissão à presença de Deus, confessando nossas culpas com sinceridade, conhecendo que nosso Deus conhece nossos mais íntimos sentimentos. Confesse ... chore ... deixe seu pecado aos pés do Senhor ... mas não se cales até que sua alma seja inundada pelo perdão do Senhor.

Que o Deus de paz nos ajude.



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